um dia eu tentei dar uma carona pruma mulher que tava se encharcando toda
Restaurante Emporium Pax, sétimo piso do Botafogo Praia Shopping, Rio de Janeiro. João e Marta estão sentados. Na mesa, só dois cardápios e um vaso de flor. Acabaram de chegar.
Você queria outro lugar?
Marta olha em direção à saída e vê a fachada do McDonald’s.
Não. Não quero pedir nada por números hoje.
Não, não. O lugar. A mesa.
Tá ótima. Sem corrente de vento. Do lado da vidraça.
É, a vista é boa aqui.
A vista consiste na enseada de Botafogo/Pão de Açúcar.
Acho que vai chover hoje.
Você viu a previsão?
Não. Só de olhar agora. Olha aquela nuvem.
Tá meio esfumaçada. Esfumaçada?
Tá meio rala. Eu trouxe guarda-chuva.
Eu entro nele?
Não. Só eu.
Um dia eu tentei dar uma carona pruma mulher que tava se encharcando toda.
No seu guarda-chuva?
Era um desses grandões.
Que que ela disse?
Ela disse que não precisava, que já tava toda molhada mesmo.
Eu acho que nem se ela tivesse toda seca ela aceitaria. Seu guarda-chuva! Você nem sabia pra onde ela ia.
Ela tava atravessando a rua junto comigo. Ela ia pegar o ônibus ali mais adiante.
Como você sabe?
Ela tinha um olhar que dizia “vou de ônibus pra casa”. Ela olhava pro ponto. “Me espera, ônibus, que eu ainda preciso atravessar a rua.”
…
Eu vi.
Viu ela entrando?
Vi. Vi ela passando pela roleta. Vi ela escolhendo um lugar na janela. Não pode ver?
Pode, uai. Eu, hein.
Nunca mais vi ela na barca. Ela pegou o 47. Não serve pra mim. Ele vai pela praia.
Atolou na areia com ela dentro. Foi isso.
*
Eu acho que…
O quê?
A gente devia tchan tchan tchan…
Hm?
Tomar uma cerveja.
Depois do trabalho?
Não! Agora.
Sim, sim. Bora pedir.
Bora.
Eles não pedem.
Ontem eu almocei naquele restaurante da praia.
Do lado do Itaú?
É. Esse. É ótimo lá. Mas aí na hora de pagar vejo uma mulher com um cartão. Não. Não de crédito, débito. Um de papel. E o cara carimbou o cartão. Daí quando chega minha vez eu pergunto “vem cá, que que era aquilo que você carimbou”, e ele diz “é nosso cartão de fidelidade”, aí eu digo “peraí, vocês têm um cartão de fidelidade”, e ele “temos”, e eu “ué, e vocês não avisam”, e ele “eu posso te dar um agora”, aí eu “rá, essa é a enésima vez que eu venho aqui”, ele “eu lembro de você”, e eu “ora, então me dá uns carimbinhos extras aí”. Aí ele riu. Aí eu paguei. Ele carimbou duas vezes, daí depois que ele me viu olhar pro cartão colocou a mão na boca e fez shhh.
O que você ganha com esse cartão?
Trezentos gramas grátis depois de dez pratos.
Porra. Eles precisam limitar a quantidade de comida? Não é melhor dar logo um prato?
Sim. É um cartão de fidelidade que não recompensa o esforço de ser fiel.
Imagina só. Você faz um prato de meio quilo e na hora de pagar o cara do caixa vê lá meio quilo e o valor, aí você entrega o cartão, daí o cara faz quinhentos menos trezentos e dá duzentos e multiplica lá na calculadora pelo valor do quilo e acha o valor que você tem que pagar. Sabe?
O quê?
Não sei. É muito complicado. Dá logo o prato todo. A pessoa não colocou só camarão e bacalhau. Tinha batata ali. Feijão. Macarrão. Feijão pesa. Tomate, não tomate seco.
Mas isso não é o pior. O pior é você ser fiel e não ter a contrapartida pela fidelidade. Eu não tô falando de fidelidade só no sentido de frequentar sempre um lugar, mas de lealdade ao restaurante. De ter uma mesa cativa…
Sei.
Aquela mesa embaixo do ar-condicionado, que não gela sua comida enquanto você tira o garfo do plástico.
Mas é restaurante a quilo, né? Rotatividade. A sua tal mesa cativa só é cativa na sua cabeça.
Sim. Mesa querida, pronto. A mesa que eu colei um chiclete embaixo. A mesa que antes era um tronco de árvore onde eu gravei um coração com meu nome e do meu primeiro amor. Satisfeito?
Nossa.
Eu não sou importante. Quando eu entro ninguém fala “Marta, não pega esse final da feijoada que tá chegando mais em dois minutos”.
Alguém sabe seu nome lá?
Não. Mas ninguém fala “minha senhora, não pega esse final da feijoada que já tá chegando mais”.
E o garçom que não vem?
A gente não chamou.
Escolhe logo o prato, daí vai direto.
Já escolhi. Eu quero o número 2, da parte de aves.
Me deixa ver. (…) Hmm.
Né?
Hmm. Fusilli?
Aquele macarrão que parece uma escada em espiral. Aquele que se coloca em salada com maionese. Tem verde, laranja. Aí você bota atum e come.
Hmm. Pode ser esse, então.
Ótimo.
O atum vai fazer falta.
Vai, não.
E as cervejas. Olha a lista.
Eu não entendo nada. Escolhe você e eu te acompanho.
Ok. Escolhi.
Qual?
A terceira.
É boa? É o quê?
É uma cerveja que parece uma escada em espiral.
A coisa pelo efeito. Tá ótimo.
A gente tem que chamar o garçom.
É.
Eles voltam a olhar o cardápio, agora a parte de sobremesas.
Acho que eu vou pedir o número 4, da seção de sobremesa.
Ótimo. Ou tchan tchan tchan…
O quê?
A gente pode dividir…
…
Um milk-shake de ovomaltine do Bob’s.
A gente vê depois. Tem que chamar o garçom.
É.
Mas antes a gente podia tirar umas fotos do Pão de Açúcar. Que que você acha?
Sim. Uma pedrona bonita dessas. Aqui minha câmera.
Marta tira da bolsa sua câmera e eles começam a tirar fotos. Pão e ele, Pão e ela, Pão sozinho, Pão e cocô de passarinho na vidraça. Fazem comentários sobre a nuvem: nuvem branca, nuvem rala, nuvem esfumaçada, como seria bonita uma nuvem em espiral. Nesse ínterim, o garçom traz uma cestinha de pães e um patê e os deposita na mesa. Eles agradecem.
Aí, ó. Fidelidade. Sem precisar perguntar.
Esse pão é pago.
Mesmo assim, é uma cortesia.
O patê é pago.
Mesmo assim. É gentil.
Ah, gentil é.
Eles começam a comer.
Atum!
• 30 July 2011 • 2 notes

O porteiro do meu prédio morreu e tá matando todo mundo.
Oi, Natália.
Oi. O porteiro do meu prédio morreu e tá matando todo mundo.
Quem morreu?
O porteiro do meu prédio.
O que ele tá fazendo?
Matando todo mundo. Sujeito e predicado numa hora dessas?
Certo. Matando todo mundo, mas morto?
Sim. Antes que você diga qualquer coisa, eu sei que não faz sentido.
Sim. Você nunca fez isso antes.
Isso o quê?
Me ligar com uma emergência.
É uma emergência.
Quantos já morreram?
Que eu saiba, 7. Ele invadiu os apartamentos do quinto andar.
Por que o quinto? E o primeiro, o segundo?
O primeiro é portaria. O segundo é garagem, o terceiro é a continuação da garagem. O quarto é o play.
Vai pro play.
Não posso. Tá trancado desde ontem. Tão montando uma festa de aniversário.
Mas como? O porteiro do seu prédio morreu e tá matando todo mundo!
Pois é. Também estranhei isso.
O porteiro ter morrido e estar matando todo mundo?
Não. A festa não ter sido cancelada. E o tema dos Simpsons. Já deu, né?
Os Simpsons?
Sim. O bolo é o Bart num skate.
Legal. Me falta a quarta temporada.
Vou colocar pra baixar aqui.
Valeu. Você tá no computador?
Tô.
Então 7 pessoas morreram no quinto andar?
Sim, uma família de diplomatas no bloco A e um casal de velhinhos no bloco B.
Os velhinhos podem ter morrido de choque.
Podem. Ainda assim, são 5 assassinatos.
É. Já se qualifica como uma emergência.
Liguei pra polícia e pra guarda municipal, mas eles tão mobilizados apreendendo óculos escuros sem proteção UV dos camelôs.
Pois é. A Sociedade Brasileira de Oftalmologia anda meio cricri.
Eu entendo. Com as lentes escuras sem proteção, as pupilas se dilatam e recebem mais radiação.
Sim. É um perigo.
Me sinto meio mal agora. Há a mulher dos gatos no sexto andar.
O que te faz pensar que ele tá matando todo mundo de baixo pra cima, sem poupar ninguém?
Instinto. Meu cérebro me diz isso.
Por que você não sai de casa? Vem aqui pra minha. A gente pode abrir um vinho.
Eu sei o que vem depois desse vinho.
O porteiro do seu prédio morreu e tá matando todo mundo.
Eu sei disso. E também sei o que vem depois desse vinho. Nove meses depois e ainda consigo ver.
Não precisa acontecer se você não quiser.
Óbvio que eu sei disso. Não se dê o trabalho de apontar isso.
E não vou comentar o absurdo que é a segunda parte da sua declaração.
Depois de 9 meses você vê o resultado?
É. Enfim. Quem matou o porteiro?
Não sei. Ele ainda não apareceu por aqui.
Como você sabe que ele tá morto?
Sua pergunta não faz nenhum sentido. Ele tá morto e tá matando.
E que família de diplomatas é essa?
Pai, mãe, três filhos de 18 a 20 anos.
Legal.
Você vai sentir falta deles?
Mais do de 19, menos do de 18. O de 20 é legalzinho, mas tentou me enforcar de brincadeira. Começou beliscando minhas bochechas, depois meu pescoço. Mas isso até que faz sentido diante do contexto.
Eu tô preocupado com você aí.
Não fique.
Chama o faxineiro.
Morto. Assassinado. Tava no elevador social.
Você viu o corpo?
Vi. Tentei sair do prédio de elevador.
Foi esfaqueado?
Sim, sim. Não sei se ele matou o cara no elevador mesmo ou não. Acho que foi um recado pra gente.
Por quê?
No social.
Que que tem?
Nada. Só me fez repensar em como eu tô levando a minha vida.
Você tentou o elevador de serviço?
Sim. Chamei os dois. Nessas horas, não há como pensar em economizar energia pro condomínio.
E aí?
Quando ele subiu, trouxe os 7 mortos do quinto andar.
Alguém agonizava?
Não. Graças a Deus. Tudo morto.
Acho que foi um recado pra gente.
Diplomatas e velhos no elevador de serviço?
E o faxineiro no social. Eu tenho um pouco de medo dessa conotação social das mortes.
Já tentou ir de escada?
Não dá. Ele trancou a saída de emergência.
Dá pra trancar uma saída de emergência?
Dá pra morrer e então matar pessoas? Não sei se você sacou, mas as coisas excepcionalmente não estão fazendo muito sentido hoje.
E seus vizinhos?
Tão no Egito.
Que sorte a deles.
É.
Falam que o Cairo é legal.
Não sei. Aquele escritor foi pra lá, Alguma Coisa Terron, e deu chilique.
Não deve ser fácil.
Bom.
Oi.
Me deixa desligar um pouco. Vou ver se consigo reunir umas facas. Acho que vou ter que amolar umas cegas.
Ok.
Quando tiver tudo pronto, ou eu ligo pra você ou entro no msn, tá?
Tá. Entra online preu te ver.
Ok. Vou entrar no vermelho, senão vão me prender no papo.
Joia. As pessoas respeitam cores de msn?
Respeitam. Ah, Simpsons tá baixando. Era a temporada 4, né?
Sim, sim.
Tá indo a quase 1 mega.
Caramba.
É. Um raro agrado da Velox.
Pois é. A GVT entrou em Niterói e eles tão aumentando a velocidade pra não perder clientes.
Sim. Mas acho que vou trocar mesmo assim.
É. Sai logo da Oi.
Sim, vou sair. Só preciso lidar com esse problema antes.
É, ele me parece mais importante. Vem cá. Você quer que eu tente a polícia?
Não, não. Deixa. Lembrei que meu pai deixou um maçarico no quartinho.
Beleza. Seu pai curte ferramentas, né?
Sim, é coisa de pai curtir ferramentas.
Legal. Que tal uma furadeira?
Talvez. Mas não sei mexer, acho.
Eu sei. Quer que eu vá praí?
Não, não. Tá tudo sob controle.
Certeza?
Sim, até porque quando você chegar os elevadores vão estar entulhados de gente retalhada.
É, bem lembrado. O vinho ainda tá de pé, hein.
Beleza. Deixa eu ir lá. Tchau.
Tchau. Cuidado aí.
Cara…
Oi.
Eu não quero colocar filho nesse mundo.
Só vinho.
• 3 January 2011 • 10 notes
Meu filho chama outro homem de pai.

Miguel, homem na faixa dos 40 anos, dirige Jonas, seu filho bem miudinho de 9, de volta à casa da mãe, Miriam, onde mora nos dias de semana. Miguel percebe que Jonas dedica uma atenção meticulosa ao passar de marchas e ao volante.
Miguel
Você vai querer aprender a dirigir?
Jonas
Eu vou dirigir igual a você?
Miguel
Não. Você vai ter seu próprio jeito.
Jonas
Eu queria dirigir tão bem quanto você.
Miguel
Eu dirijo bem?
Jonas
Dirige.
Miguel
Obrigado.
Jonas
Eu acho difícil uma coisa.
Miguel
O quê?
Jonas
Fazer as curvas.
Miguel
É muito fácil, você aprende bem rápido.
Jonas
Como você sabe a hora certa em que você tem que virar a direção?
Miguel
A hora certa chega e você vira.
Jonas
E se você virar um segundo depois da hora certa e entrar na calçada?
Miguel
Isso não acontece. Não precisa se preocupar.
Jonas
Quando eu vou aprender a dirigir?
Miguel
Quanto você tiver 18 anos.
Jonas
Quantos anos eu tenho?
Miguel
Você tem nove anos.
Jonas
Acertou. Como você sabe?
Miguel
Todo pai tem que saber duas coisas do filho: a idade e em que série ele está na escola.
Jonas
Todo pai?
Miguel
Todo pai.
Jonas
Em que série eu tô?
Miguel
Na terceira.
Jonas
Quando chegar em casa vou fazer o teste com o Luís.
Miguel
Que teste?
Jonas
Se ele sabe quantos anos eu tenho e qual a minha série.
Miguel
Mas por quê?
Jonas
Ué, ele é o meu pai quando você não tá sendo.
Miguel
Ele não é seu pai. Ele é pai do Maurício e da Luísa.
Jonas
Ele é pai de nós três. Faz uns dias que eu, o Maurício e a Luísa, a gente tava jogando videogame e eles tavam com os controles e eles não quiseram me deixar jogar, daí o Luís falou “Deixa o irmão de vocês jogar também”.
Miguel
Certo.
Jonas
Então se eles são meus irmãos, ele é meu pai.
Miguel
Como você chama ele?
Miguel
De Luís.
Miguel
Como você me chama?
Miguel
De pai. Quando eu tô irritado chamo você de Miguel.
Miguel
Viu a diferença? Pai, eu. Luís, ele.
Jonas
Às vezes eu chamo ele de pai. Mas só quando eu esqueço de falar Luís.
Miguel
Às vezes quando?
Jonas
Aconteceu um dia quando eu tava na mesa. A gente sempre janta juntos. Daí o Maurício falou “passa o arroz, pai”, daí o Luís falou “qual a palavra mágica?”, daí ele falou “por favor”. Aí eu falei “passa a comida, por favor, pai”. Nunca me esqueço do por favor, mas às vezes me esqueço do Luís.
Miguel
Que bom que vocês comem juntos. É ótimo.
Jonas
A mamãe também chama o Luís de pai. Acho isso engraçado.
Miguel
Algumas pessoas chamam as esposas de mãe e os maridos de pai. Acontece.
Jonas
Todo mundo chamando ele de pai e eu chamando de Luís. Eu e a empregada, mas ela também fala senhor. Fico com vergonha.
Miguel
Eu acho que você tem que continuar fazendo isso, mas tem que parar de sentir vergonha. Pai só tem um. E não existe “outro pai”, “novo pai”, “pai alternativo”, “pai de dias de semana”, “pai de videogame”, “pai de passa o arroz”.
Jonas
Vou lembrar, mas se eu me esquecer, tudo bem?
Miguel
Tudo joia.
Jonas observa Miguel passando a marcha, e Miguel percebe.
Miguel
Você viu o que eu fiz?
Jonas
O quê?
Miguel
Passei da terceira pra quarta marcha.
Jonas
É difícil fazer isso?
Miguel
Não, só preciso mexer aqui. Assim, viu?
Jonas
Legal. Por que você fez isso?
Miguel
Pro carro ganhar mais velocidade.
Jonas
Isso é mais fácil que fazer curva?
Miguel
Acho que sim. Você não pensa muito pra fazer. Você jogando videogame. Você pensa em cada botão que aperta?
Jonas
Não, não dá. Eu aperto muitos botãos.
Miguel
Botões.
Jonas
O quê?
Miguel
Botões. O plural de botão é botões, não botãos.
Jonas
Tá.
Miguel
Mas então. No carro também. A gente não fica apertando botões, mas é mais ou menos a mesma coisa. A gente já dirige há tanto tempo que faz tudo sem pensar.
Jonas
Sem pensar em nada?
Miguel
Não, não é essa moleza. A gente vê os outros carros, presta atenção nos sinais. É bem difícil. Quer dizer, não é difícil, só exige atenção.
Jonas
Então ainda bem que eu tenho nove anos pra aprender.
Miguel
Não, na verdade você não pode aprender até ter 18 anos.
Jonas
Não posso ir treinando antes?
Miguel
Poder pode. Aprender você pode, mas não pode sair na rua e mostrar que aprendeu, não pode ter o documento que prova que você sabe dirigir.
Jonas
Quem treina uma pessoa com menos de 18 anos?
Miguel
O pai, a mãe, o irmão mais velho.
Jonas
E se essa pessoa, eu digamos, bater o carro numa árvore aprendendo?
Miguel
Tem uma pessoa do lado justamente pra evitar isso. E o ideal é que no início não existam árvores, pessoas, ciclovias, avenidas, nada disso. Pra não ter perigo.
Jonas
A gente já tá chegando, né?
Miguel
Mais uns dois minutos.
Jonas
Você precisa virar aqui à esquerda, depois seguir em frente e entrar numa ruazinha que dá pruma ladeira.
Miguel
É isso aí, rapaz. Vem cá, a Miriam te falou que eu vou viajar no próximo final de semana?
Jonas
Por que você não fala mamãe? É estranho ouvir o nome dela.
Miguel
Tá bom. Mamãe te falou que o papai vai viajar semana que vem?
Jonas
Falou. É lá na África, né?
Miguel
É sim. Cidade do Cabo.
Jonas
É o nome do lugar?
Miguel
Sim, da cidade. É um lugar bem bonito.
Jonas
Mais bonito que o Rio?
Miguel
Não sei. Mas você sabia que tem uma montanha lá no formato de uma mesa?
Jonas
A gente tem uma no formato de um pão de açúcar.
Miguel
Já pensou se a gente colocasse o Pão de Açúcar em cima da montanha que parece uma mesa?
Jonas
Ia ser demais. Mas não dá pra fazer isso, né?
Miguel
Não. Seria complicado.
Jonas
Você vai trazer alguma coisa pra mim de lá?
Miguel
Vou. Tô pensando no que vai ser.
Jonas
Traz também pro Maurício e pra Luísa. Quando o Luís viajou ele trouxe presentes pra nós três.
Miguel
Vou trazer.
Jonas
Traz cartão postal.
Miguel
Cartão postal?
Jonas
Dos lugares que você foi. Da montanha que parece uma mesa. Escreve atrás como é o lugar e o que você fez lá.
Miguel
Foto não é melhor?
Jonas
É que foto não é presente.
Miguel
Tá bom, tá bom.
Jonas
Aí eu vou precisar de um mural.
Miguel
Pra pregar os postais?
Jonas
É.
Miguel
Isso eu compro aí no Rio.
Miguel para na entrada do edifício de Miriam.
Jonas
Chegamos.
Miguel
O que você vai fazer hoje?
Jonas
O dever de casa pra amanhã.
Miguel
É muita coisa?
Jonas
Mais ou menos.
Miguel
Por que você não levou pra fazer lá em casa?
Jonas
Porque aí não daria tempo de fazer mais nada.
Miguel
Sei. Sua mãe não reclama?
Jonas
Não, ela diz que eu tenho que aproveitar você.
Miguel
Pode dizer pra ela que você me aproveita muito.
Jonas
Tá bom.
Miguel
Dá um abraço em todos, viu?
Jonas
Vi.
Miguel
Seja educado na escola, nada de repetir aquilo da outra semana de empurrar uma criança do balanço. E não faça bagunça nas aulas. Não coma de colher, você já tá grande demais pra isso. Peça pra sua mãe te levar num barbeiro, seu cabelo tá enorme. Fala pra ela ver essas suas duas pintas na barriga, tão maiores do que da última vez. Não jogue muito videogame, só um pouco.
Jonas
Tá bom, pai.
Miguel
E o mais importante.
Jonas
O quê?
Miguel
Só seu pai é seu pai, meu filho. Não chame outra pessoa de pai.
Jonas
Pode deixar. Boa viagem.
Miguel
Obrigado.
Jonas
Não esquece os presentes.
Miguel
Pode deixar. Um beijo.
Jonas
Tchau.
Texto inteiramente dedicado à bela família da Eloísa e a qualquer pessoa que teve alguma coisa a ver com os seriados norte-americanos Once and Again e Gilmore Girls, que me ensinaram tanto sobre questões familiares quanto meu pai, minha mãe e meu irmão.
• 18 February 2010 • 14 notes

Leila liga para Joana, sua amiga.
Leila
Alô, Joana.
Joice
Não, quem fala é a mãe dela.
Leila
Oi, tia. Tudo bom?
Joice
Tudo ótimo, e sua mãe, como vai?
Leila
Ela tá bem agora, tirou os pontos semana passada.
Joice
Que bom, agora é bola pra frente.
Leila
Sim, sim. Você pode passar pra Joana, por favor?
Joice
Claro, quem deseja?
Leila
A Leila. A filha da mulher que tirou os pontos.
Joice
Sim, claro. Só me deu um branco. Vida que segue.
Joice entra sem bater no quarto de Joana.
Joice
Telefone pra você.
Joana
Quem é?
Joice
Aquela sua amiga.
Joice entrega o telefone para Joana e vai embora, deixando a porta aberta.
Pedro
Opa. “Aquela” nunca é bom. Aquela sua amiga drogada. Aquela sua amiga depravada. Aquela sua…
Joana
Atenção, mãe. Eu não tenho amigas assim, só modelos de vida.
Pedro
Sua mãe deixou a porta aberta por algum motivo?
Joana (atendendo o telefone)
Alô.
Leila
Joaninha!
Joana
Leiloca. Que que você conta?
Pedro
Joaninha, você não vai acreditar em que eu beijei na festa… Sim, amiga, ele é tão lindo, o cabelo dele ondula tão bem…
Leila
Quem tá aí?
Joana
O Pedro.
Leila
Me coloca no viva-voz.
Joana
Tá.
Leila
Oi, Pedro.
Pedro
Por que você está ligando, Leila?
Leila
“Vou te colocar no micro-ondas?”
Pedro
Vou tentar de novo: por que você está ligando?
Leila
“Vou te colocar no micro-ondas.”
Joana
O do Alemão?
Leila
Acho que não. Pelo tom de voz devia ser um normal. Sem pneus.
Pedro
O que é isso?
Leila
Me falaram isso ontem, na rua. É um cara que trabalha na mercearia, ele sabe onde eu moro.
João
Foi dentro da mercearia?
Leila
Foi.
João
Então não foi na rua, foi na mercearia.
Leila
E daí?
Joana
Você tá com medo?
Leila
Claro que não.
Pedro
Tá com meda?
Leila
Não. Hora de mudar o radical.
Pedro
Mercearia?
Leila
Sim, existe uma mercearia onde eu moro. Os tempos aqui são mais simples, as pessoas jogam sudoku na pracinha.
Joana
Você já deu trela pra ele?
Leila
Claro que não.
Pedro
Você dá trela pra todo mundo. No bom sentido. Incentiva todo mundo a falar, a se expressar. Assim, amorosamente. Amigavelmente também. Não é. É.
Leila
Dizer “por favor”, “obrigado” e “um maço de chicória” é dar em cima de alguém?
Joana
Ah, não. Chicória é uma verdura muito família. Você não viu aquele comercial?
Pedro
Chicote. Um maço de chicote. Um maço de cigarros e um chicote. Um chicote durante e um maço de cigarros depois. Você é uma puta.
Leila
Por que eu mencionei isso? Eu nem liguei pra falar disso.
Joana
Ligou pra quê?
Leila
Pra isso. Exatamente pra isso. Tô com medo, meda e aparentemente sou uma puta.
Pedro
Não existe mais isso de ser estuprada e ainda por cima ser condenada porque usava saia curta e “tava querendo”.
Joana
Mas olha onde ela mora! Os velhinhos jogam bocha na praça.
Leila
Foco. “Vou te colocar no micro-ondas.”
Pedro
Essa vendinha é chinesa?
Leila
Sim.
Joana
Não!
Pedro
Sim!
Leila
O quê?
Pedro
Uma palavra: Gremlin.
Leila
Vou colocar um saco de pipoca no micro-ondas pra assistir Gremlins?
Joana
Não. Quer dizer, talvez. A gente precisa se agarrar a todas as esperanças.
Pedro
Ele quer te matar? O que você acha disso?
Leila
Tem seus contras.
Joana
Você nunca viu Goonies?
Pedro
Gremlins! Gremlins!
Joana
Gremlins.
Leila
Já. Uns bichos verdes que morrem de medo de água. Daí uma velhinha pega um deles, achando que é um duende, e bota pra enfeitar o jardim, daí ela liga o regador e o duende a persegue, mexe na cadeira de rodas dela e ela voa escada afora.
Pedro
Bom, pegue tudo isso que você falou, jogue a primeira metade no lixo, e eu diria que você tá no caminho certo.
Joana
São três cenas.
Pedro
Três cenas lendárias.
Joana
Você não viveu se você não sabe delas.
Pedro
Marcos da nossa infância.
Joana
Pilares máximos sobre os quais toda a civilização ocidental foi erigida.
Leila
Oi, desculpa interromper, mas querem me assar num micro-ondas.
Pedro
Desculpa. Três cenas fundamentais.
Joana
A primeira. Meu Deus, clássica!
Pedro
Chega o pai com um animal de estimação pra família. Diz que comprou em Chinatown. Viu? Chinatown, mercadinho chinês.
Joana
Teste. Quais são as regras, Leila?
Leila
Não molhar.
Pedro
Isso! Não molhar. Pelo seu próprio bem.
Joana
E a outra é?
Pedro
Não alimentá-lo depois de meia-noite.
Joana
Falta mais uma.
Pedro
Não expor o bicho à luz forte.
Joana
Você realmente é o homem certo pra mim.
Pedro e Joana se beijam.
Leila
Eu liguei, cara. Vocês não podem gastar minha ligação assim. É como eu ligar pra alguém, e esse alguém pedir pra falar com alguém da minha casa. Tipo, se você quer falar com alguém da minha casa, liga você pra cá.
Pedro
Desculpa.
Joana
É, desculpa.
Leila
E então? Quais são as três cenas? Peraí, as três cenas são as três regras?
Joana
Não! As três regras fazem parte da primeira cena.
Pedro
A segunda cena é aquela que você meio que acertou, da velhinha sendo lançada escada abaixo com a cadeira de rodas.
Joana
Cena maravilhosa. Tão ousada. A malícia da coisa!
Leila
Pau a pau com vou te assar no micro-ondas.
Joana
Para de aumentar, cara. É “Vou te colocar no micro-ondas.” Colocar, não assar.
Leila
A assadura está implícita.
Pedro
Vou te colocar no micro-ondas, te tirar, e então te beijar todinha. Você é muito linda.
Leila
Cruzes. Próxima interpretação, por favor.
Joana
Terceira cena. A mãe do menino, a esposa do comprador do Gremlin original tá na cozinha e os outros começam a atacá-la e ela enfia um deles no…
Pedro
No…
Leila
Minha vez? No…
Pedro
Micro-ondas!
Leila
Não entendi como isso é relevante.
Pedro
O cara do mercado quer te explodir.
Joana
Te fritar.
Pedro
Impedir que você procrie e que sua prole mate a família chinesa dele.
Leila
Por que voces não me deixaram ficar com “assar”? Era a melhor alternativa. “Quase assei na praia hoje.”
Joana
Bom, ele talvez te ame.
Pedro
Algumas pessoas expressam seu amor assim.
Joana
Tipo, ele tava no espelho um dia antes dizendo: “Vou te colocar na bancada da cozinha e te fazer mulher.” Daí ele ficou nervoso, errou o lugar e esqueceu de falar o que faria contigo.
Leila
Não que ele precisasse, né? Já ficou decidido que ele é um fã de Gremlins que quer me matar, assar e fritar pra proteger a família chinesa dele.
Pedro
Ele fala português bem? Pode ser uma metáfora. “Vamos dar uma aquecida.”
Joana
Ele disse alguma coisa depois disso?
Leila
Só me entregou a chicória e eu me mandei.
Pedro
Ele falou isso olhando pra você?
Joana
Vai que ele tava falando com um punhado de milho.
Leila
Ah sim, porque isso seria muito normal, faria todo sentido.
Joana
O cara disse que ia te botar num micro-ondas. Você ainda procura sentido?
Pedro
Ele teria que te retalhar antes. E fazer várias sessões. Tem que ver a capacidade. Trinta litros por exemplo não dão pra nada.
Joana
O amor é exatamente assim. Imprevisível, carnal, carniceiro. Quem viu Embriagado de amor, quando eles dois estão na cama e um diz que vai chupar os olhos do outro e o outro retruca que vai marretar a cabeça do outro.
Pedro
Esse filme é bem louco.
Joana
Suas opções. Primeira: tentar despedir o moleque. Aliás, é moleque?
Leila
Deve ter uns 20 já. E deve ser filho do dono. Próxima opção.
Joana
Plantar um rato, ligar pra Vigilância Sanitária e esperar.
Leila
Que coisa escrota.
Joana
Falou a menina que está prestes a ser enfiada num micro-ondas.
Pedro
Tem outra alternativa.
Joice entra na linha.
Joice
Meninas, e menino, preciso usar o telefone.
Joana
Ah, mãe, usa o celular.
Joice
Não.
Joana
Então desliga pra gente terminar aqui.
Joice
Tá, mas só por um minuto.
Leila
Qual a outra alternativa?
João
Fazer compras na Sendas, que fica logo ali na outra quadra.
Leila
Mas e a vida do interior, os vizinhos que se cumprimentam?
Joana
Micro-ondas de um lado. Vizinhos jogando xadrez do outro.
Pedro
É uma hora bem ruim pra insistir em ser hippie, vou te dizer.
Leila
Esse mundo que chegou tão perto de acontecer.
Pedro
É uma merda.
Joana
Porra, nem fala.
Leila
Vou indo.
Pedro
Vai lá, um beijo.
Joana
Já imaginou se esse cara tivesse te falado isso numa festa? Você estaria tão relaxada agora.
Leila
Não, acho que seria bizarro do mesmo jeito.
Pedro
Você já jantou?
Leila
Não. Mamãe deixou comida aqui no fogão. Beijos.
Joana
Até.
Pedro
Tchau.
Joana vai até a porta do quarto, grita para a mãe que a linha está livre, e volta para a cama, onde Pedro se encontra.
Joana
Micro-ondas leva hífen? Micro hífen ondas?
Pedro
Acho que levava antes, mas agora não leva mais.
Joana
Você não faz a menor ideia, né?
Pedro
É.
• 5 February 2010 • 2 notes

João e Isabel são namorados. Ela é bem mais nova do que ele. Estão na sala de estar do apartamento dele.
Isabel
Minha resolução para esse ano. Comprar um mimeógrafo.
João
Qual é a resolução?
Isabel
Comprar um mimeógrafo, já disse.
João
Acho que você não entendeu direito essa coisa de resolução de fim de ano.
Isabel
Eu sei de cor as resoluções de fim de ano.
João
Sabe nada.
Isabel
Não só sei de cor, como vou fazer várias cópias com meu mimeógrafo pra dizer isso.
João
Você não vai comprar um negócio desses.
Isabel
Por isso resolução. E não… ação.
João
Resolução é “vou ser mais magro em 2010”, “vou ser menos carinhoso com meus gatos em 2010”, “vou levar a cabo meu projeto mais pessoal em 2011”. São projeções.
Isabel
Pois então. O mimeógrafo, comprar um, é uma projeção minha.
João
Mas independe da sua vontade. Você precisa de dinheiro. Sua resolução devia ser “ter dinheiro pra comprar um mimeógrafo” e não “comprar um mimeógrafo”.
Isabel
Ter dinheiro também não depende de mim. Depende dos donos dos cachorros que eu levo pra dar uma volta.
João
Você ainda tem essa vergonha de dizer que é passeadora, né?
Isabel
Claro que não, tiro 2 mil por mês com isso. E tem aquele labrador que é incrível.
João
Por que você não tem uma resolução como “não vou ser mais passeadora em 2010”?
Isabel
Acabei de te falar do labrador incrível. Ele precisa de mim. Você acabou de me perguntar se eu tinha vergonha de dizer que era passeadora mas você é que acha vergonhoso dizer que sua namorada é passeadora. E aí?
João
Comprar um mimeógrafo não é resolução. Deixar de passear cachorros ou passear mais cachorros é resolução.
Isabel
Resolução é aspiração. Eu aspiro um mimeógrafo.
João
Cruzes, você aspira a, a, a um mimeógrafo. Vamos melhorar essa regência.
Isabel
Deixa a minha regência em paz. Preciso dizer isso quantas vezes? Aspiro. Um. Mimeógrafo.
João
Mas isso tem cara de listinha de Natal. Resolução de fim de ano é coisa séria, não dá pra brincar com isso. É prometer que aquele ano será o melhor da sua vida. Um mimeógrafo não te ajudaria em nada.
Isabel
Um mimeógrafo me ajudaria a dizer em letras garrafais “Este vai ser o melhor ano da minha vida”.
João
Um mimeógrafo não é uma prioridade. Só aqui está sendo uma prioridade. Ninguém nunca falou tantas vezes a palavra mimeógrafo antes.
Isabel
Pra mim é uma prioridade. Não acabei de dizer que eu quero comprar um mimeógrafo em 2010?
João
Agora sim. Comprar. Lista de compras. Água sanitária, leite, mimeógrafo. Você não pode achar que isso é uma resolução.
Isabel
Não compare mimeógrafo e leite, é como maçã e banana.
João
A expressão é “maçãs e laranjas”.
Isabel
Que se foda, feirante.
Fez-se silêncio.
João
Mimeógrafo é caro.
Isabel
Não acredito que você não sabe o que é um mimeógrafo.
João
Como assim? Claro que eu sei.
Isabel
Se soubesse não diria que é caro. É baratíssimo.
João
Quanto é?
Isabel
Uns 100, 200.
João
(Surpreso) Opa. (Não mais surpreso) Não posso achar isso acho caro, não?
Isabel
Cala essa boca, você ganha 10 mil por mês.
João
Você merecia uma resolução melhor, ok? Ok. Já volto.
João sai, dirige-se ao computador de seu quarto, abre o Houaiss eletrônico e confere as palavras “mimeógrafo” e “resolução”, depois procura mimeógrafos à venda no Mercado Livre.
• 30 January 2010 • 3 notes